sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Formiga dona Injustina



Não se sabe exatamente em que formigueiro passou-se esta história, se próximo à linha do equador, se na cordilheira dos Andes no sul da Argentina, se na floresta amazônica ou se no quintal de sua casa. O formigueiro era diversificado, viviam todos dos tipos de formigas: magrelas, altas, gordinhas, pretas, vermelhinhas. Cada bichano contribuía com o que sabia e recebia ajuda no que pedia. Um formigueiro é tão múltiplo porque é feito de muitos. Todos juntos, cada um com seu jeito, mas sem desigualdades. Foi exatamente nesse formigueiro, conta-se as boas línguas, que sucedeu a história da dona Injustina, uma formiga que queria viver sozinha, esnobe e prepotente, a única formiga do mundo que não trabalhava, de tão especial que se sentia. Melhor do que qualquer outra formiguinha, seja soldado ou rainha. Isso por quê? Dona Injustina, a tal formiga egoísta, tinha patas de sorvete.

Para entender o sucedido, basta escutar esta pequena história.

As formigas não conheciam critérios de beleza, todas eram iguais, pois as diferenças ainda não tinham sido construídas. Nem nomes tinham. Não que elas fossem iguais, meras cópias, só não havia melhor, nem pior. Melhor antena, pior bunda, melhor cor para os olhos, pior cor para a pele. Não existiam critérios de julgamento, nem preconcebidos. As diferenças passavam indiferentes.
Até que um dia, no pacato formigueiro, chegaram formigas do outro lado da floresta, ocidentais. Formigas de antenas em pé, donas de bibliotecas, línguas mortas e saberes cultos. Com seus diplomas embaixo do braço, chegaram cheias de palavras e ordens. Eram bacharéis em moda, diziam, donas do bom senso, do bom gosto e da boa forma. De suas bocas saíram os nomes, distribuíram aparências e classificações. Divisões. As formigas, coitadas, foram metralhadas. Você é gorda. Você magrela. Baixinha. Bunda muito grande. Patas tortas. Bonita. Elegante. Fraca. Preta. Vermelha, orelhuda. Todas as diferenças nasceram.
Porém, quando viram as patas de dona Injustina, as formigas doutoras e blábláblá admiraram-se com tamanha doçura e de imediato taxaram-na como a formiga mais gostosa do formigueiro, quiçá do mundo. Todos ficaram felizes, afinal, ser a mais gostosa do mundo deveria ser algo bom.
No entanto, a partir desse dia, dona Injustina se sobrepôs aos demais, pois falaram que a mais gostosa era a melhor também. Não queria mais trabalhar, de carregadeira que era, passou a descansar sua gostosura na sombra fresca, em pleno verão, quando todos trabalhavam para o frio do inverno.


- Estás cansado Josefino? (o pobre chamava-se assim não por mau gosto dos pais, mas de tão magro que era)
- Muito Injustina, podes me ajudar com esse floco de açúcar?
- Eu? Formiga só trabalha porque não tem patas de sorvete.
E ria que se acabava, de tão só, sua única diversão era rir dos outros – os diferentes. Ninguém era como ela. Enquanto todos tinham que buscar alimento, ela tinha o mais gostoso nas próprias patas. Sorvete de flocos, de creme, de napolitano, de limão. Os soldados mais fortes e valentes até tentavam mordiscar um pedacinho da pata de creme, mas dona Injustina não caia em baratas seduções. As crianças, pobrezinhas, choravam e choravam para se lambuzarem no sorvete de napolitano, mas nada. Nem a criança mais comportada merecia uma patinha de Injustina. Os pais, coitados, tinham que trabalhar para comprar sorvete e acalmar suas crianças.


Até os amigos mais antigos desistiram de Injustina, o tempo em que brincavam todos juntos, de ré de esconder e de formiga atômica foi facilmente esquecido da cabeça da gostosona.

- Vamos brincar Injustina?
- Eu lá tenho tempo para brincar? Isso é coisa de formiga sonhadora, fantasiosa. Eu sou minha melhor diversão, real e verdadeira.

A família cansou-se dos intermináveis conselhos e evitava Tininha, apelido entre os mais chegados, envergonhados que estavam de seu recorrente comportamento.
Ela nem te ligo, caminhava rebolando e ostentando suas pernocas.

- Quem disse que é impossível ser feliz sozinho? Eu estou muito bem, não preciso de vocês. Logo brilharei no exterior, farei mais sucesso do que a formiga rainha.

Pobres formigas, carregavam pesadas comidas e folhas para lá e para cá, carregadeiras que eram e ainda tinham que escutar os desprazeres de dona Injustina.

No inverno, todas as formigas se reuniam ao redor da fogueira, contavam histórias, anedotas. Comiam marshmallow e todos os doces encontrados no trabalho de verão. Era uma grande colônia de férias, uma grande diversão.
Somente dona Injustina permanecia longe do calor, pois nem sabia acender um fósforo, quem dera uma fogueira. Os sorvetes de suas patas ficavam tão gelados que a formiga quase congelava por inteira. Mas permanecia quieta, orgulhosa que era, recusava-se pedir ajuda. Deitava-se ao pé da árvore, tremia gemidos de dor, o cão bobo, acostumado com as injustiças dos humanos, ficava com pena da formiga e lançava seu rabo peludo sobre as patas de sorvete. Assim, dona Injustina sobrevivia aos invernos mais intensos, na ilusão de estar protegida.


Em certo verão, o sol quase tocava a terra, o mais escaldante de todos, culpa do tatu, que não parava de fazer buraco na camada de ozônio, dona Injustina vestiu seu melhor biquíni e foi até a beira do rio. Arrumou seu óculos escuro, presente das formigas cultas, que a gostosa ostentava com orgulho, banhou-se de bronzeador solar e deitou-se na margem do rio, bem no caminho das formigas carregadeiras. Pobres formigas, nem os soldados deram jeito em dona Injustina. Ela espreguiçava-se e comia sorvete de limão, enquanto as carregadeiras, sob um sol de 40graus levavam na cabeça pedaço de pão, asa de mosca, recheio de bolacha recheada. Todas exaustas, com o suor escorrendo pelas patinhas, todas pedindo perdão para o sol, que sem dúvidas queimava de raiva lá em cima.
As formigas, unidas e amigas que eram - funcionavam em coletivo – revezavam o tempo e o trabalho, para descansarem um pouco na sombra. Somente dona Injustina permanecia embaixo do sol.

- Muito trabalho Igordo?
- Sim Injustina, achamos um carregamento de bala de goma. Não podemos desperdiçar, apesar desse sol estar queimando minhas patinhas.
- Queimar as patas? Nem sei o que é isso, meu sorvetinho é sempre gelado.
Ela ria que ria, afinal, a única coisa que dona Injustina aprendeu a fazer foi rir das demais formiguinhas.
Entre insultos e lambidas no sorvete de limão o dia foi passando.

O sol, raivoso que estava, não queria virar noite, borbulhava seu fogo incessantemente. A lua já esperava na porta do céu para entrar. O tempo revia suas horas.
Nesse momento aconteceu algo que mudou o destino do formigueiro. Uns dizem que foi peça do sol, outros que foi o bom juízo do destino, ainda afirmam que foi pura física: Tudo que vai volta.
Independente do meio, o fim se concretizou e todos no final sorriram.
Acontece que dona Injustina nem bola dava para a raiva do sol, rolava-se na areia, mergulhava no rio e balançava suas pernocas para lá e para cá. Para que todos vissem. As outras formigas, respeitosas e bem sabidas, se protegiam na sombra.
O sol ficou tão bravo, mas tão bravo que deu uma super baforada na terra. O calor era tanto que todos puderam descobrir o que o pai sol comeu no almoço. O bafo calorqueimoso passou por dona Injustina e a jogou no rio. Voou óculos e biquíni. Todos riram ao ver dona Injustina se afogando na água. Bem feito, tinha que queimar a bunda, alguns diziam.
Mas o fantástico aconteceu quando a gostosona saiu da água. As expressões de riso mudaram para de espanto. Ninguém sabia o que fazer, o que falar. Injustina caminhava como se nada tivesse acontecido, dona de si, doce que era. A expressão de susto petrificou-se na face das formiguinhas.
O que foi, nunca me viram? Gritou dona Injustina, num tom seco e rude.
Josefino, com o corpo todo tremendo, apontou para as pernas de dona Injustina.
- Nem vem seu magricela, vai trabalhar! Já disse que o sorvete é meu.
O magrelo permaneceu calado e apontando o dedo.
Dona Injustina abaixou os olhos, seguindo o dedo de Josefino, e não acreditou no que viu.
Voltou a levantar a cabeça e percebeu que todas as formigas do formigueiro a encaravam.

- Minhas...Minhas pat...Meus sorvetes...Minhas patas!

Dona Injustina, e alguns até tiveram pena dela, não parava de gritar: Minhas patas de sorveteeees!
Quem roubou? Devolvam minhas patas de sorveteeeees.
Mas nada adiantava. Quanto mais chorava, mais magricela suas patas ficavam. As patas de Injustina eram tão magras quanto as de Josefino.
O pai da formiga desesperada, por amor a filha, pegou-a nos braços e levou-a para casa. Depois, lentamente, todos regressaram às suas casas, sem pronunciarem uma palavra.


Acontece que a baforada do pai sol foi tão quente, mas tão quente, que derreteu os sorvetinhos de Injustina quando a jogou no rio. Não restou nada, nem o morango do napolitado, nem um pedacinho de flocos, nem a casca do limão, muito menos uma sobrinha de creme. Só uma pata pata, verdadeiramente pata.


No dia seguinte, todos acordaram cedo para certificarem-se se o que aconteceu no dia anterior não seria um sonho. Todas as patas estavam na frente da casa de Injustina, o pai saiu de dentro e falou em alto e bom som:
- Minha filha perdeu as patas de sorvetes, o sol não deixou nem uma açuquinha.

Agora, todos já destemidos, caíram na gargalhada.
Bem feito, vai trabalhar agora sua magrela! Gritou o Soldadson.
Ih, é uma coitada, vai morrer de fome, da nossa comida essazinha não come. Retrucou o Formozildo.
E a formigalhada gritou em uníssono – Isso mesmo, da nossa comida ela não come.

Nisso, Injustina apareceu na janela.
- Mas se não comer a comida de vocês, o que vou comer?
Não faltaram palavras de protesto.
- Com muito trabalho também é possível comer sorvete, as crianças sempre deixam cair, é só procurar.
Mas nenhuma formiga quis trabalhar com dona Injustina, ela, nem sabia por onde andar. Estava sozinha e sem seus sorvetes naturais. E agora? O que fazer?
Quando a sentença já estava dada e dona Injustina estava proibida de entrar no grupo das carregadeiras, Josefino apareceu todo molhado, lambendo seu corpinho por inteiro. Chegou pulando e cantando, era a única formiga feliz.
- Família formiga, vocês não vão acreditar: O rio está doce. Venham ver!
E todas as formigas correram para a margem do rio. Uma por uma, com um ar de espanto, foi se lambuzando nas águas doces do rio, uma mescla de limão, creme, napolitano e flocos. E o fantástico novamente aconteceu. As patas de sorvete de dona Injustiça adoçaram todo o rio, agora o formigueiro tinha alimento para mais dez verões. Todos pularam e cantaram, até mesmo dona Injustina, que se sentia muito mais livre sem o peso do sorvete. Mal sabia ela que a pata magrela e feia era muito melhor do que a aparente bonita pata de sorvete.


Entre o burburinho da festança, o pai de Tininha, pediu silêncio e, mais uma vez, falou em alto e bom som.
- Família formiga, eu, como pai de Tininha, e conhecendo a bondade no coração de todos vocês, peço a todos que aceitem minha filha novamente no grupo. Com a seguinte condição: Todas as manhãs, Tininha acordará antes que o sol e regará o formigueiro com as águas doces do rio.
- E a formigalhada, novamente, gritou em uníssono: SIM.
Injustina corria que corria, por anos comeu sorvete, mas, segundo ela, não há nada melhor do que um caloroso abraço.
Nesse mesmo dia, dona Injustina reencontrou seus amigos e não demorou a perguntar:
Vamos brincar?






Da decepção de um sonho.

E seguiu em direção à alvorada
sem saber o que amanheceria
se ela
ou o dia.
Deixou passadas noturnas para trás
pesadas estrelas cadentes, que almejou fazer cair.
Despiu-se da bandeira
e da maneira.
No bolso:
o brilho da última lua cheia
e uma semente de sono
para o nascer futuro
de um horizonte
de um sonho.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Do calendário que marca os dias.

Se o beijo é nulo
a língua é muda.
A saliva seca transpira medo
ausências
produção em série de lacunas
Trago um quilo de saudade aqui dentro,
passa o tempo, leva o vento
e o tumor aumenta. 
Se a língua é morta
o beijo é frio
de um toque de nada
que ultrapassa o vazio.
Choro os amanhãs, na desistência do presente
na falência
de qualquer utopia
crença.
como uma flor
que passa a primavera a chorar
com medo do inevitável frio do inverno.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Café da tarde.

Das rugas sem sorrisos sabe-se o tempo.
Dos sorrisos sem tempos, sabe-se o amigo.

Eu não sei se é assim:
A cada sol-posto perco a sabedoria das crianças
ou a cada sol-vindo aquarela-se em mim um pingo de infância.

Na falta, cabe-se o mundo.
Numa saudade criativa, cria-se borboletas borralheiras.

Entre o trânsito do fim de expediente, entre as grades do condomínio
entre o nascer do sol e o sorriso da lua
Dois carinhos se procuram.

Uma estória boa é motivo de sono
Uma estória ruim é motivo de sono
Essa é a diferença entre o adulto e a criança.

Literatura:
Aumentar a possibilidade de ser das coisas. 

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Primeira semana do ano.

Dia 01/01/2014.
Show: Saulo, Gal Costa, Gilberto Gil e Caetano Veloso.
Pelourinho - Salvador.


Passei por mim, de um grito de tambor.
E dos passos avulsos,
entre orlas e ladeiras
diz a voz de salvador:
                        Quem te trouxe aqui, Exu?
Saulo, que é Bahia
e Gal
que é para turistas
e universitários socialistas.
Ilê Aiyê, Olodum
para Carolina
um gingado saliente
suado e quente, da Praça da Sé
ao terreiro de Jesus
arrocha, capoeira e axé.
Sempre novidade, novo o bastante
para apaixonar mais e mais.
A ladeira, que se espreguiça em pedrinhas,
e o azeite de dendê
que convidam para descer e adentrar vento afora:
“Venha primeiro dia do ano,
serei sua Gabriela, sua Tieta,
sua Dona e sua Flor
Rosa do Rosário
as fitas de pedidos comprados.
Venha meu rei
e passe
assim como muitos passaram
e muitos passarão
pois sou livre, passarinho
de nego nenhum
sou Zumbi de palmas e palmares
Vá e deixe uma oferenda
para Exu proteger a minha casa Bahia.”
Vú que te disse!


Dia 02/01/2014
Show: Olodum, Ilê Ayiê, Daniela Mercury.
Ilha de Itaparica, Ilha dos Frades.


O dia se abre porque é de paz
O sol, trabalhador que é,
não se avexe em brilhar.
Os passos seguem levando,
não sei o que, para o que vem de ser.
Levam ritmados, ao som
de Daniela e do Olodum
o cheiro noturno da noite passada.
O sol brilha na face dela,
cada dia mais bonita, mais verão.
Carolina não me diz o que sente,
mas é tão bom cheirá-la
estar em sua paisagem.
O sol se põe em seu rosto, faz nascer algo em mim.
Já não sou o que era, e a possibilidade de ser
aumentou.
É que uma ilha nunca é cercada por águas,
é cercada por histórias,
assim como as pessoas.
As minhas fronteiras se desfazem a cada dia,
esse é um dos sentidos da vida.
Desterritorializar-se sem se esquecer de sua terra. Como isso?
Eu que sei? Paradoxo da porra!
Ilha dos Frades, Ilha de Itaparica, cada uma com seu nome,
de olhar o sol no olho,
encará-lo, sê-lo.
Cada uma com seu povo,
sua paz, seu pai.
Cada corpo com seu ser, que borbulha
explode, queima, exala calor,
e evapora de si.
Corpos que anoitecem e amanhecem
que se despedem para voltar no dia seguinte.
Como esse sol que acabou de se despedir de mim
e de Carolina.


03/01/2014.
Boteco São Jorge - Rio vermelho.
Praia do forte.


A mesa não foi feita para suportar pratos,
talheres e reunir cadeiras.
A mesa serve para reunir pessoas,
cada uma com seu tempero,
com sua porção de histórias e
experiências fritas e mal passadas.
Pessoas de almas cruas e assadas.
O bar do São Jorge tem dessas mesas, de matar
um dragão
e fazer renascer outro dragão chinês.
Carolina olhava o além,
segurava com as duas mãos o sono que deitava sobre seus olhos.
Ela é forte e bela, e adjetivos outros que ainda irão nascer.
A praia também é forte,
se não fosse, não teria forças para segurar tanta água.
Água que cura feridas, na crença de Carolina.
Praia do forte que nos desarma, nos pacifica.
Um dia que parece um mês,
que extrapola as horas do relógio.
Farol da barra, Pressão baixa, ônibus,
pernas, café, acarajé,
bolsas, cervejas, Rio vermelho.
Agora descanse Carolina, pois te ver dormir
é o ponto turístico mais bonito de Salvador.


04/01/2014.
Solar do Unhão
Jam no man
Fundação casa de Jorge Amado.


Os sapos devem ser um instrumento inspirador
multiplicador de línguas, de histórias e de culturas.
Pois isso então que Jorge Amado,
o colecionador de sapos,
escreveu tantos livros, fez nascerem tantos personagens.
Amado, as fotografias de Zélia mostram-te feliz.
De vários ângulos, com várias pessoas, em vários lugares.
Quantos, como eu, estiveram aqui
caminhando por sua trajetória,
o protagonista maior de sua obra,
e também ficaram com a mão coçando para escrever
Uma Tieta, criar
Capitães de areia,
Ou com a língua salivando
por um bom gole de café.
                       Carolina não deixou, era bom respeitar minha gastrite.
Aqui, somos todos sapos.
Quando entro em sua casa, Jorge,
Sou e paz.
Carolina também me convidou
para entrar em sua casa, protegida por Exú.
Eu, que sou amor, ainda caminho timidamente,
com medo de sujar o tapete, quebrar um vaso precioso.
Nas casas de Jorge Amado e de Carolina
a literatura pulsa firme e eu continuo
escrevendo minha história.

05/04/2014.
Farol da Barra.
Rua da Graça.
Ida Recife.



No meio de tanta água,
na baía de Salvador,
o maior medo de um peixe é nadar só.
Na terra, o maior medo de uma pessoa é não se encontrar em alguém.
Por isso existem os faróis:
para atracarmos nosso navio num porto de passagem
para iluminar os caminhos tortos dos peixes tontos
para salvar as almas perdidas que estão ilhadas em corpos desérticos.
Os faróis são a única esperança de muitos peixes, que aguardam,
apeixonadamente,
a sua hora de estrela.
Há luz para todos, vale ressaltar,
Os faróis são democráticos, giram redondamente.
O Farol da Barra é assim, salvador de peixinhos perdidos
E recanto de casais amantes.
Ser farol também é possível,
Basta ter bastante luz nos olhos.
Carolina é assim:
ilumina o que tem em volta
e faz todos se encontrarem, escrevendo sentidos,
imagens e escuridades.
Porque farol é assim:
Ilumina por 5 segundos e escurece por mais 20.
Nos 20 segundos de solidão reside a liberdade, exatamente ali,
onde se nasce luz.
Agora Carolina dorme, sentada ao meu lado,
a caminho de Recife.
Meu Farol descansa e percorre por seus sonhos de sol e de lua
e de mar
para amanhã me contar
mais um caminho.

06/07/2014.
Recife Antigo.
Parque de esculturas Brennand.
Cidade Tabajara.
Casa da Rabeca - Encontro de Cavalo Marinho.


Recife não acorda na segunda,
as portas estão fechadas e as ruas ainda sujas do maracatu de domingo.
Sim, Recife antigo, velho e desbotado.
Na rota dos poetas a poesia correu para longe.
Mas resquícios de estranha civilização habitam Recife.
Pelas águas do Capibaribe chega-se a terra de Brennand,
Obra ereta, de sereias, sapos e tartarugas.
Carolina dá asas às tartarugas e inventa andorinha.
Ela costuma inventar os sonhos, as conversas,
as respostas,
como se para seguir fosse preciso criar, pois viver não é preciso.
Quando a tradição impressiona mais do que o moderno
É sinal de que estamos no lugar certo.
Encontrar o lugar certo é o princípio de encontrar a si mesmo, seja lá no que for,
pois o lugar certo não é um lugar, é um estado, é uma relação,
a pura sensação de alívio e alegria.
Assim foi assistir aos pés descalços sobre o chão batido,
dançar cavalo marinho.
Num espetáculo inexplicável.
Quem eram aquelas pessoas?
O que aquelas mãos moíam em dias de trabalho?
Ali todos eram iguais, eram os pilares do lugar
e a construção da felicidade.
Cidade Tabajara, rua Curupira: Como vivenciar uma lenda.

07/07/2014.
Praia de Boa Viagem.
Olinda.

A moça bonita da praia de Boa Viagem
infantiliza-se na areia, brinca
com sua pipa águia colorida.
Os sentimentos pairam no ar, levitam.
Estão fora e por isso existem, porque os tiramos de dentro.
E Carolina brinca e caminha sem saber o quanto é.
Leva um sentimento tão delicado, inventado no meu caderno de poesia.
Guarda o sentimento na bolsa e sacode a areia do pé,
Desce a ladeira da Sé.
Das coisas que nascem do chão
e das cordas do violão, cultura e história.
Olinda sabe o nome que tem, por isso é bela.
O sol queima nossa nuca, aquece
o que tem antes do pensamento,
para florescer as ideias boas, que
imagina o maracatu e o frevo não escutado nas ladeiras de Olinda.
É só domingo! É só domingo!
Cartola e tapioca de carne de sol desaparecem do prato,
e aos poucos vamos mastigando o sabor e o sol pernambucano.
Do ponto mais alto de Olinda vemos Recife e o ontem.
E aquele sentimento flutuante se materializa em azul,
E é maior do que o céu, porque tudo nele existe:
Frevo, maraca, Olinda, praia de Boa viagem
E amor
Inventado
Também pulsa,
Também é infinito.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

A força e a ação do tempo.

    Era uma vez uma cidade fantástica, onde as borboletas elegeram como ninho para o nascer de seu bater de asas, onde as pessoas se conhecem de infância, de coração puro e por isso fazem ressignificar as fronteiras da família. Nunca houve um roubo, uma traição, um crime. Nem mentira, nem verdade, as coisas existiam porque assim eram para existir, sem julgamentos finais e iniciais. Sem objetividade, pois não era preciso acertar, nem correr.
    Nessa cidade, onde a felicidade existia sem se dar nome, num belo dia, surgiu um professor de português, alfabetizador. O mestre encantou-se pela cidade e ali ficou por algum tempo. Na sua estadia ensinou os garimpeiros, os agricultores, as lavadeiras, os capoeiristas, a magia das palavras. Ensinou os moradores a ler e a escrever. Depois do importante a árduo trabalho o professor seguiu sua peregrinação pelo interior do país.
    A cidade ficou ainda mais fantástica. Placas, dando o nome das coisas, brotaram das mãos dos nativos. Nas estradas, singelas placas indicam o caminho e na mercearia do Amarildo, sobre a porta de entrada, ele escreveu seu próprio nome com orgulho.
    O filho do seu Amarildo aprendeu a escrever na infância, como todos os seus amiguinhos. Nessa época os primeiros poetas surgiram, assim como livros vindos da capital. Todas as miragens já tinham seus nomes e os sonhos aprenderam uma língua. Os netos do Seu Amarildo foram fazer universidade na capital assim que completaram o ensino médio.
    Hoje, a cidade fantástica está em ruínas.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Do meu ninho

Fique mais, para provocar meu degelo
até espantar o meu medo
que leva um terço do tempo
de uma lua e um copo esvaziar-se

Chegue mais perto, no meu espaço estreito
Por entre as entranhas do peito
Deito e me deleito, fico sem jeito
Por seu meio de me dissipar

Ande mais, até errar o caminho
E adentrar meu ninho
Quebrar minha casca, minha calma
Minha alma
Da essência sabendo ser o contrário
Do meu destino imitando teu acaso
E falar pertinho
O silêncio que nunca soube falar
E só sua voz poderia dizer
No pé do meu ouvido
Fico, chego, ando
E de quebra
Amo.

Até germinar outro eu
Que nasceu sabendo voar
Com as asas que você me deu
Novo, mas cheio de mim
Um mim cheio de ti

Que levo comigo, como um livro lido

sem final