O rio amanhecia antes do grito
do galo iniciar a manhã. E junto com o rio, João também era outro dia. Antes da
mulher e dos filhos acordarem João saía de casa, sempre com um adeus não
respondido. Na realidade, o homem de cinquenta anos tinha mais intimidades com
o rio do que com a família, era mais pescador do que pai.
O pescador só andava por dois
momentos durante o dia, no caminho de ida até rio e no caminho de regresso do
rio, no resto o homem flutuava sobre as águas, suas pernas eram a canoa e seus
passos os remos. Esse era o seu dia, que também era sua vida. Cotidianamente
carregava nas costas o mesmo peso da tarrafa e o mesmo destino, a herança de
seus ancestrais, assim como a lua carrega o peso da noite.
Mas tem um dia em que até o
sol esquece a sua sina de brilhar, um dia em que os nomes trocam de signo, as
flores de cheiro, as cores de foco, os peixes de oceano e os homens de seres.
Nesse dia de verdades duvidosas o pescador já estava sobre a canoa quando o
improvável aconteceu. A canoa era levada pelo rio e João era carregado pela
canoa. Seus olhos permaneciam atentos, esperando qualquer movimento suspeito
nas águas para lançar sua tarrafa. Assim embalava-se o ritmo do baile, rio,
canoa, pescador, olhos, tarrafa, peixe. Uma dança bem ensaiada. Porém, nesse
estranho dia, o rio errou o passo, parece que travou os pés, tropeçou nas
próprias pernas. A canoa parou, João parou, os olhos pararam e até os peixes
pararam.
Nem gregos, nem troianos
acreditaram, nem filósofos, nem boêmios aceitariam, mas esta era a verdade: O
rio parou. O rio não passava mais, não corria, nem caminhava, estava parado,
cessou seu caminho, estava fixo como uma pedra dormindo. Nesse momento um
menino poderia dizer que entrou duas vezes no mesmo rio.
O pescador não podia
compreender, o que fazer sobre um rio parado? Como lançar a tarrafa numa água
que não corria? Não sabia para onde seguir, era como se tivesse perdido o
aprendizado das pernas e a sabedoria da própria identidade. Um pescador sobre
um rio parado não sabe andar.
Nesse momento de medo, João
olhou para cima e compreendeu a mensagem divina, algum deus estava a dar a
humanidade um caminho novo a ser trilhado.
O céu estava azul e suas
nuvens pareciam a mata ciliar de um imenso rio. O sol, que há anos vinha transformando
a pele de João em escama de lagarto, iluminava todo aquele mar celestial. Pois
se o sertão não virou mar, agora, sobre os olhos de João, o céu virou mar. Os
sentidos trocaram fronteiras e as palavras já não sabiam de que língua
pertenciam. A cara virou coroa e a coroa virou plebeu. Babel era o mundo, mas
tudo estava tranquilo, sereno, como o paraíso nunca esteve antes.
Era um brilho que quase fez
cegar o pobre pescador, de uma luz que confundiu suas vistas e sua remota
lucidez. O que era aquilo que brilhava no céu? Um peixe batia suas pequenas
nadadeiras como se fosse uma andorinha. Suas escamas refletiam como um prisma,
era luz para todos os lados. O peixe parecia um arco-íris a dançar no céu.
Primeiro percebeu um peixe,
depois os olhos aprenderam a ver. Não era apenas um, era um cardume de
arco-íris que nadavam no céu.
João não se intimidou,
pescador que era, rapidamente armou a tarrafa. A tarrafa era como a extensão de
seu corpo, obedecia seus extintos como os seus dedos obedeciam. Os olhos eram
olhos de águia, fixos e atentos, pela primeira vez seu algo não estava
submerso, escondido entre águas, agora era o ar. João lançou sua tarrafa para o
céu e, pela primeira vez, pescou peixes voadores, encharcados de ar.
O gongá estava cheio e
iluminado, de um peixe que saciava mais que a fome, que alimentava mais que o
corpo.
O rio continuava parado,
nenhum passo para frente, nenhum passo para trás. Não porque não soubesse aonde
ir, não que estivesse confuso, desorientado ou cansado. É que as direções
estavam trocadas.
O rio, pela primeira vez,
disse: Vai pescador, estás livre! Escolha seu caminho, siga o que tiveres para seguir,
és mais livre e leve que a água.
João, iluminado, enfim, foi
ser rio de si.
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