Dedicação é uma palavra que desagua sucesso.
Isso falaram para Joanita.
A verdade Joanita, a verdadeira sabedoria!
Assim a menina resolveu buscar as certezas
as respostas certas.
Se o caminho é claro, prossegue-se mais rapido
sabe-se onde pisa, não existe medo.
Trilhava pela claridade
no escuro não andava.
Nas madrugas ninguém a via
pois não saía Joanita.
Depois de tanta luz, dona Joana
resolveu não dormir,
para evitar as incertezas e supresas
do pretume do sono.
Quando perguntaram a Joana
qual era o seu sonho,
ela não soube responder.
[...]A mãe reparava o menino com ternura. A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta! Você vai carregar água na peneira a vida toda. Você vai encher os vazios com as suas peraltagens e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos. Manoel de Barros.
segunda-feira, 28 de outubro de 2013
domingo, 29 de setembro de 2013
Do esquecimento.
Saiu
porta e corpo afora
Fora
de sua história.
Para do pingo da
chuva pingar-se
diluir o que ficou
daquilo que já não
há.
E levar para além
do nada o que virá
Assim foi-se o
sangue
o medo
a roupa, o batom
o cabelo
a casa e o tempo.
Só ficou ali
perdido,
num torto canto
escondido
do pensamento
o esquecimento.
Tal qual o corpo
molhado
esperando se secar.
sexta-feira, 27 de setembro de 2013
Poema para Caracolina escrito em Manoelês.
Ela
tem intimidades para pássaros
Tem
olhar de águia
de
achar um barco filhote no meio do oceano
de
enxergar um despropósito maduro na árvore
[despropósito
podre já não presta.
Tem
anseios de João de barro,
arquiteta,
de
artesã arteira que era
construtora
de paisagens de janela
anseios
que nascem de ser artista
e
de ser criança aprendiz, infantil.
Desabrocha-se
primavera
que
se abri para flores
e
para cheiros,
as
abelhas são gratas
e
a presenteiam com mel.
Ela
converte o presente em voz
todas
as melodias doces
musicalmente
melada
como
o gorjeio de um pássaro amante
e
livre.
Tem
dom de céu
de
ser voo de arara
Tem
dom de chão
de
ser rastro de caracol
Caracolina
de asas, é assim conhecida
comunhão
entre ar e terra.
Ela
ri que ri
porque
assim o sol se encoraja para o mundo iluminar
[ela
beberica o sol sem que ele perceba.
Tem
intimidade com as paisagens
concebe
todas de fantasia fantástica
inventando-se
ao vento com asas sempre abertas.
Ela
tem intimidade de pássaros
de
ser ave ela vive
me
ensina a ser andorinha?
sexta-feira, 20 de setembro de 2013
Nado-me em nada.
Os
eus são muitos
transbordam pelos bolsos
multiplicam
os espelhos
e
os vultos.
Caem
pelas calçadas
varrem
as madrugadas.
Ultrapassam
os dias da semana
sou
mais do que sete.
Já
não sei quando mudo
segunda
se confunde com quarta
Raimunda
se confunde com Marta.
Amores
eu nem cuido.
Tantos
eus que nunca são nós
paralelas
livres de nós
uma
parede feita de janelas
vários
sóis
várias
paisagens e olhares.
Multiplicado
em esquadros, um prisma.
Existência
sem guarda-sol.
Composição
cubista
diferentes
perspectivas.
Este
que aqui está
desfaz-se
no agora
Este
eu só serve para se desfazer
inutensílio
despropositado
água
de chaleira
vapor
de banheira
desmanchar-se
em sobrado
até
sobrar o nado afogado
Desconstrução
poética
inicia
pelos pés descalços
no chão
finaliza
nas pontas dos dedos
da mão
somem
a tatuagem
o
piercing
o
cabelo colorido
some
a própria margem.
Quando
me desfaço
me
esqueço
encontro
o nada
lugar
de tudo
em
letras esparramado.
Acendo
o esqueiro
e
vejo o outro-não-mais-eu
morto
no que era meu
com
seu destino traçado
em
traços versados
em
traças.
Eu
mais uma folha de papel
pronto
para virar lugar de lixeira
ou
lembrança poética na parede.
domingo, 15 de setembro de 2013
Aula de gramática
- Pai? Paaai!
- O que é Dourival? Por que
chegou assim agitado da escola? O que você aprontou dessa vez?
Já não disse para obedecer as
normas da escola?
- Não pai, é outra coisa.
Aprendi algo muito interessante hoje
- Ah! Fala sério Dourival. Na
escola? Só se foi no recreio.
- Na aula pai, com a
professora.
- Sério mesmo? Aprendeu algo
na escola?
- Sim pai. Aprendi gramática
normativa. E tudo ficou tão claro. A professora disse que existe a língua e
existe a gramática. A gramática é da língua, mas as pessoas acham que é tudo a
mesma coisa e pensam que a gramática normativa é a língua. Então, esquecem a
língua e valorizam a gramática, numa tentativa frustrada de naturalizar a
gramática normativa em seus usos diários.
- E?
- Como assim, não sacou? É
igualzinho no amor. Eu perguntei pra professora o que era a língua, ela disse
que não sabia, pois era professora de português e ali na escola só podia me
apresentar a gramática.
- Mas e o amor Dourival, o
que tem a ver com tudo isso?
- Ninguém sabe o que é o amor
direito pai. Mas a maioria das pessoas está casada ou namorando, todos vivem um
relacionamento. O amor é a língua e o relacionamento é a gramática normativa.
As pessoas acabam confundindo amor e relacionamento e pensam que namorar ou casar
é amar. E no fim, esquecem o amor e vivem o relacionamento. Vivem as regras da
gramática pensando que tem algo a ver com o amor. Certo ou errado. Permitido e
não permitido, tudo padronizado. Regras arcaicas. Tem até sua metalinguagem:
Fidelidade, devoção, honestidade, exclusividade de tudo. Todas essas
palavrinhas que somos obrigados a decorar. Hoje eu decorei Hobigeto Direto na
aula de gramática. E você pai, teve aula de relacionamento ou de amor hoje?
- Bem, dormi no sofá essa
noite, devo ter errado algo, isso é relacionamento não é?
- Pai, nem se você acertasse
você acertaria. Regras são regras, acordadas nem por você e muito menos pela
mamãe, mas por que vocês a aceitaram?
A aula hoje foi boa, pena que a
professora não saiba. Professor de português e a língua portuguesa devem ser
namorados. Namorados que esqueceram o amor e vivem nas regras do
relacionamento.
Interessante, para tudo deve existir uma
gramática. Por isso que essa vida anda tão chatinha.
domingo, 8 de setembro de 2013
Dever matinal
Manuezito mantinha birra com a mãe. Ele queria brincar com os meninos da rua e ela
apontava o chão da cozinha para varrer. Sempre foi assim, desde seus primeiros
anos de vida. Voz grave e certeza no olhar, há
coisas para fazer menino. Era o legado de sua tataravó, passado de geração
em geração. E o menino fazia.
Birriava e fazia. Varria o chão da cozinha que era o lugar mais sagrado da casa,
lavava as verduras, passava as roupas, penteava os cabelos dos irmãos após o
banho. O menino cresceu e aquelas palavras ressoam em seu ouvido, como se o
ontem fosse hoje, como se a barba no rosto não escondesse a meninice infantil. É que o mundo é mais do que um moinho, são vários. Aquela
casa era o mundo da mãe, cheio de coisas para se fazer. Sujeiras injustas entre
as panelas. Ainda há muita coisa para limpar nesse mundo. A vida é isso, pensa o menino, um mundo cheio de coisas para fazer,
até não haver mais sujeiras na cozinha.
sábado, 10 de agosto de 2013
Para além da terra quadrada.
Morrer
não é verbo fácil
Nunca
vi um em vida
Viver
também não
São
poucos que encontrei.
Sombras
têm aos cachos
É um
estado de espírito estável
Nem
vivo nem morto
De
um pretume onde luz não entra.
De
uma fronteira quase imóvel
levada
de leste a oeste
pelo
sol,
mas
essas sombras nunca se deixam queimar
disciplinadas
que são,
desconhecem
seu ditador de órbita
como
desconhecem deus.
Meu
primo Zé se banha ao sol de meio dia
Transgrediu
seu lugar de sombra
Este
vive.
O
fato se deu quando ainda criança, era aula de geografia
Zezinho
não acreditava na professora
Teimosia
infantil
A terra
não podia ser redonda,
era
quadrada
e havia uma queda sem fim depois dela
para
além do real
para
além da visão dos olhos.
O
menino cresceu e ganhou bigodes
Expulso
da escola, expulso da família
Marginalizou-se
e construiu um barco
Nadar
contra a maré
Atravessar
as ondas contrárias era seu destino.
Negar
a si mesmo, para poder ser.
Navegou
todos os oceanos, até encontrar o fim da linha,
o inicio imagético.
A queda
sem fim
O buraco
do coelho
O precipício
de dentro
Como
a leitura da poesia
O caindo
sem cair.
Os
ventos que sopraram a vela do barco
vinham
de sua imaginação
De
tanto sopro
libertou-a
de vez
Rasgou
a cabeça
Zé
passou a imaginar antes de ver, ótica criativa.
Maluco!
Vagabundo!
A terra
era quadrada!
Expulso
de casa e das instituições
Meu
primo ganhou o mundo
Hoje
a rua é seu lar, somente as calçadas sujas e a polícia lhe dão abrigo
A calçada
para lhe oferecer seus ensinamentos de chão
A polícia
para lhe ensinar porrada e prisão.
Zé
era o paradigma por vir
Não
havia olhos para vê-lo
Não
havia ouvidos para escutá-lo
Não havia ciência para comprová-lo
Uma
verdade inaceitável.
Proibida
de ser dita
como
se não houvesse solo para a raiz da rosa.
Ou
linhas para a prosa.
Em
dias de chuva, como hoje,
quando
o sol também se esconde
aproveito
a ausência das pessoas, sombras nulas,
para
visitar meu primo.
Zé
é o mundo.
De
um fogo louco que me aquece
De
uma luz que embaralha o olhar
Dispo-me
de meus trajes
Deito-me
na terra molhada e escuto-o
suas
experiências são fantásticas
a
queda da terra quadrada é a melhor
leitura
literária.
Meu
primo me ensina a pisar no precipício.
Se
a utopia está no horizonte
Ultrapasse
o horizonte e caia na queda
Para
além da terra quadrada
imaginar
o mundo é o princípio.
Ensina-me
a ser livre.
Assinar:
Comentários (Atom)